quinta-feira, 22 de outubro de 2009



Às vezes vem uma inspiração do nada, uma imagem do desconhecido...
 pego um pincel, misturo umas tintas e sai algo assim...








terça-feira, 20 de outubro de 2009

A morte personificada







Ainda não é noite tão avançada quando vem roçar no vidro da janela a ponta do galho de uma velha árvore do jardim. Pela força gelada do vento noturno, o movimento de vir tocar os dedos secos no vidro e se esquivar para trás se revela como o bailado triste de secar as lágrimas. É melancólica a música que embala esta dança, pois ela nasce cadenciada, seca e quase toda muda para ir morrer tal como morrem os últimos suspiros de uma vida que ainda agoniza os seus últimos minutos. Parece ser muito doce assim cantar e dançar ao mesmo tempo. Sim, doce parece ser este furtivo encontro entre galho e vidro como o olhar paciente da morte, sempre a esperar por aquela vida de partida, a qual veio buscá-la. Nota-se algo de rebelde e infantil nas maneiras e feições, algo de não querer sentir dor no roçar e brincar do vento com o vidro, algo de sagrado e muito divino na oferenda voluntária que esta vida faz de si para a morte. Ali, prostrada e sufocada, enquanto viva ainda estiver, a vida toda se abre em braços, pernas e peito. Toda se oferece àquela coberta de frieza e negro. Assim, enquanto o ar puder entrar e descansar em seus pulmões muito cansados, a vida arfará em suspiro, se contorcerá sobre o leito e puxará o lençol suado com as mãos para si, mergulhada no líquido do gozo misterioso sobre o leito onde ao lado, em pé, a morte assiste a cena sôfrega. A morte aguarda a vida. Espera por ela. Não avança sinal. Não fura regras. Não se impacienta. Por um longo momento, ambas se olham nos olhos. Para a vida, é chegada a hora de deixar ser abraçada e levada em sossego por aquela fria e vestida de negro, por aquela nunca vista de rosto descoberto, por aquela que crê lhe pertencer apenas por ter visto em seus olhos de morte a razão de morrer no átimo e algum segundo perdido. Nesse momento, meus olhos se confundem e não me é possível saber ao certo se é a morte que lentamente se deita na cama e toma nas suas muito geladas as já mornas mãos da vida ou se é ela que, no ímpeto de resgatar o que ainda lhe sobra de força, se levanta do leito e sela um beijo nos lábios escondidos da morte. Porém, de outro escuro jardim onde dança e canta uma árvore solitária, alguém virá me contar em segredo que a morte encontra a vida assim como os dedos secos de um galho vem tocar a superfície de um vidro. Virá e me dirá que ali se encontram os amantes na intimidade que habita o silêncio da noite, quando o homem amado desce ao leito quente e úmido de sua mulher ou quando esta se levanta, no ímpeto de suas ultimas forças guardadas, e sela seus lábios apaixonados nos dele. Acreditará ainda mais em mim e me guardará outro segredo, confessando que neste divino abraço ela deixará de viver para morrer esgotada e segura no calor aconchegante do peito dele. Antes de fugir para outro jardim, antes do sol se levantar no horizonte e envolver a terra com seu hálito morno, apontará algo que jaz no chão: uma semente coberta de folhas e muito úmida pelo último sereno. Com sorriso infante e de pés descalços, guardará a semente no bolso sujo e desaparecerá entre as folhagens do jardim que há pouco era tomado pelo escuro da noite.
Fernando Igrejas 




                  
          

Eu gosto de escrever






Abro um baú e espano a poeira que os anos trouxeram ali pra dentro. Engolidos pela escuridão da caixa, meus olhos tateiam a superfície interna das paredes enquanto que minhas mãos vão, num mergulho sem medo pelo espaço, em busca de algo que jaz no fundo. Sob diversas formas, cores e tamanhos, vários outros baús vem compor o cenário que costumamos chamar de memória. Nalgum, acabo por encontrar um rosto conhecido: o de um menino curioso que não pára de perguntar o porquê das coisas e que desde muito pequeno já inventava – e continua ainda a inventar - personagens e estórias. Era na falta dos coleguinhas e de outras crianças da vizinhança que sua mãe e a cozinheira da casa se transformavam na platéia diária. Pois naquele curto intervalo entre o jornal e a novela das oito, as duas mulheres se sentavam nas cadeiras de alumínio da fria área de serviço, e viam surgir, ora envolto em papel ora vestindo meias coloridas, a pequena figura de um trovador, de um palhaço saltimbanco ou de algum outro personagem inspirado nas últimas horas do dia. Por mais que naquele lugar não existisse nada além de uma barulhenta máquina de lavar roupas, uma geladeira velha e duas cansadas senhoras sentadas em cadeiras de alumínio, aquele menino só se enxergava num palco muito iluminado e só via as milhares de pessoas atentas no que dizia. Tudo se resumia no transmitir dalguma coisa sem se importar com a forma. A idade ainda lhe permitia tais liberdades. Assim, embebido naquela arte de criança de fazer arte, aquele menino foi crescendo sem deixar de inventar, sem se esquecer de participar do mundo e de ter curiosidade por ele. No colegial, a matéria predileta foi a Redação. Hoje, me basta fechar os olhos para muito facilmente ser atingido por aquela sensação de esperar a professora escrever no quadro negro as três sugestões para tema. Eram sempre três. E sempre vinham no fim da aula, naqueles poucos minutos que restam para soar o sino. Rapidamente anotava e guardava na mochila o caderno encapado com plástico azul. Mal fechava o zíper da bolsa, minha cabeça já ia agitada no vapor das ideias. No caminho para casa, as vivas invenções adquiriam tal força a ponto de fazer emudecer o menino tão falante e ativo. Pois mecanicamente andando pela rua, passava circunspecto e de cabeça baixa pelos outros garotos que brincavam e saudavam o findar da aula. Naquele instante eu deixara de pertencer àquele fim de tarde e mergulhava dentro de mim mesmo como à época da fria área de serviço, no curto intervalo entre o jornal e a novela das oito. Então dentro do quarto, de porta fechada e sentado à escrivaninha, minha mão guiava a ponta do lápis. Ali era o nascer pleno e calmo de um novo chão. Era fato que a ponta do grafite não conseguia correr na mesma velocidade dos pensamentos; mas parece-me agora que diante daquela escrivaninha os tempos se casavam melhor e mais fácil, sem pedir até. Era vagarosamente, através das letras redondas e cursivas, que aquilo que me vinha por dentro tomava forma sem maiores dificuldades. O prazer e a alegria de escrever – e de estar escrevendo – me faziam encher algumas páginas. Escrever era botar em substantivos o abstrato. Estar escrevendo era viajar para fora do quarto e da cidade, e de mim mesmo. O ofício se figurava no levar algo a alguém de mãos em concha, de ofertar algo de mim para o que me cercava. Deliciosamente, tudo se consumia na aula seguinte quando todos liam seus textos e a professora fazia a escolha dos melhores para serem expostos, durante uma semana inteira, no mural do corredor central. Para aquele menino curioso, ter seu texto lá exposto vinha como o aplauso mudo e abafado dos olhos que porventura ali viessem pousar e lê-lo. Pois assim o tempo foi passando e o menino cresceu. Continua a escrever. E guarda o que escreve sem saber para quem.
Fernando Igrejas