Ainda não é noite tão avançada quando vem roçar no vidro da janela a ponta do galho de uma velha árvore do jardim. Pela força gelada do vento noturno, o movimento de vir tocar os dedos secos no vidro e se esquivar para trás se revela como o bailado triste de secar as lágrimas. É melancólica a música que embala esta dança, pois ela nasce cadenciada, seca e quase toda muda para ir morrer tal como morrem os últimos suspiros de uma vida que ainda agoniza os seus últimos minutos. Parece ser muito doce assim cantar e dançar ao mesmo tempo. Sim, doce parece ser este furtivo encontro entre galho e vidro como o olhar paciente da morte, sempre a esperar por aquela vida de partida, a qual veio buscá-la. Nota-se algo de rebelde e infantil nas maneiras e feições, algo de não querer sentir dor no roçar e brincar do vento com o vidro, algo de sagrado e muito divino na oferenda voluntária que esta vida faz de si para a morte. Ali, prostrada e sufocada, enquanto viva ainda estiver, a vida toda se abre em braços, pernas e peito. Toda se oferece àquela coberta de frieza e negro. Assim, enquanto o ar puder entrar e descansar em seus pulmões muito cansados, a vida arfará em suspiro, se contorcerá sobre o leito e puxará o lençol suado com as mãos para si, mergulhada no líquido do gozo misterioso sobre o leito onde ao lado, em pé, a morte assiste a cena sôfrega. A morte aguarda a vida. Espera por ela. Não avança sinal. Não fura regras. Não se impacienta. Por um longo momento, ambas se olham nos olhos. Para a vida, é chegada a hora de deixar ser abraçada e levada em sossego por aquela fria e vestida de negro, por aquela nunca vista de rosto descoberto, por aquela que crê lhe pertencer apenas por ter visto em seus olhos de morte a razão de morrer no átimo e algum segundo perdido. Nesse momento, meus olhos se confundem e não me é possível saber ao certo se é a morte que lentamente se deita na cama e toma nas suas muito geladas as já mornas mãos da vida ou se é ela que, no ímpeto de resgatar o que ainda lhe sobra de força, se levanta do leito e sela um beijo nos lábios escondidos da morte. Porém, de outro escuro jardim onde dança e canta uma árvore solitária, alguém virá me contar em segredo que a morte encontra a vida assim como os dedos secos de um galho vem tocar a superfície de um vidro. Virá e me dirá que ali se encontram os amantes na intimidade que habita o silêncio da noite, quando o homem amado desce ao leito quente e úmido de sua mulher ou quando esta se levanta, no ímpeto de suas ultimas forças guardadas, e sela seus lábios apaixonados nos dele. Acreditará ainda mais em mim e me guardará outro segredo, confessando que neste divino abraço ela deixará de viver para morrer esgotada e segura no calor aconchegante do peito dele. Antes de fugir para outro jardim, antes do sol se levantar no horizonte e envolver a terra com seu hálito morno, apontará algo que jaz no chão: uma semente coberta de folhas e muito úmida pelo último sereno. Com sorriso infante e de pés descalços, guardará a semente no bolso sujo e desaparecerá entre as folhagens do jardim que há pouco era tomado pelo escuro da noite.
Fernando Igrejas
Fernando Igrejas

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