Abro um baú e espano a poeira que os anos trouxeram ali pra dentro. Engolidos pela escuridão da caixa, meus olhos tateiam a superfície interna das paredes enquanto que minhas mãos vão, num mergulho sem medo pelo espaço, em busca de algo que jaz no fundo. Sob diversas formas, cores e tamanhos, vários outros baús vem compor o cenário que costumamos chamar de memória. Nalgum, acabo por encontrar um rosto conhecido: o de um menino curioso que não pára de perguntar o porquê das coisas e que desde muito pequeno já inventava – e continua ainda a inventar - personagens e estórias. Era na falta dos coleguinhas e de outras crianças da vizinhança que sua mãe e a cozinheira da casa se transformavam na platéia diária. Pois naquele curto intervalo entre o jornal e a novela das oito, as duas mulheres se sentavam nas cadeiras de alumínio da fria área de serviço, e viam surgir, ora envolto em papel ora vestindo meias coloridas, a pequena figura de um trovador, de um palhaço saltimbanco ou de algum outro personagem inspirado nas últimas horas do dia. Por mais que naquele lugar não existisse nada além de uma barulhenta máquina de lavar roupas, uma geladeira velha e duas cansadas senhoras sentadas em cadeiras de alumínio, aquele menino só se enxergava num palco muito iluminado e só via as milhares de pessoas atentas no que dizia. Tudo se resumia no transmitir dalguma coisa sem se importar com a forma. A idade ainda lhe permitia tais liberdades. Assim, embebido naquela arte de criança de fazer arte, aquele menino foi crescendo sem deixar de inventar, sem se esquecer de participar do mundo e de ter curiosidade por ele. No colegial, a matéria predileta foi a Redação. Hoje, me basta fechar os olhos para muito facilmente ser atingido por aquela sensação de esperar a professora escrever no quadro negro as três sugestões para tema. Eram sempre três. E sempre vinham no fim da aula, naqueles poucos minutos que restam para soar o sino. Rapidamente anotava e guardava na mochila o caderno encapado com plástico azul. Mal fechava o zíper da bolsa, minha cabeça já ia agitada no vapor das ideias. No caminho para casa, as vivas invenções adquiriam tal força a ponto de fazer emudecer o menino tão falante e ativo. Pois mecanicamente andando pela rua, passava circunspecto e de cabeça baixa pelos outros garotos que brincavam e saudavam o findar da aula. Naquele instante eu deixara de pertencer àquele fim de tarde e mergulhava dentro de mim mesmo como à época da fria área de serviço, no curto intervalo entre o jornal e a novela das oito. Então dentro do quarto, de porta fechada e sentado à escrivaninha, minha mão guiava a ponta do lápis. Ali era o nascer pleno e calmo de um novo chão. Era fato que a ponta do grafite não conseguia correr na mesma velocidade dos pensamentos; mas parece-me agora que diante daquela escrivaninha os tempos se casavam melhor e mais fácil, sem pedir até. Era vagarosamente, através das letras redondas e cursivas, que aquilo que me vinha por dentro tomava forma sem maiores dificuldades. O prazer e a alegria de escrever – e de estar escrevendo – me faziam encher algumas páginas. Escrever era botar em substantivos o abstrato. Estar escrevendo era viajar para fora do quarto e da cidade, e de mim mesmo. O ofício se figurava no levar algo a alguém de mãos em concha, de ofertar algo de mim para o que me cercava. Deliciosamente, tudo se consumia na aula seguinte quando todos liam seus textos e a professora fazia a escolha dos melhores para serem expostos, durante uma semana inteira, no mural do corredor central. Para aquele menino curioso, ter seu texto lá exposto vinha como o aplauso mudo e abafado dos olhos que porventura ali viessem pousar e lê-lo. Pois assim o tempo foi passando e o menino cresceu. Continua a escrever. E guarda o que escreve sem saber para quem.
Fernando Igrejas
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