segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Onde você estará no próximo Natal?




Achei engraçado e ao mesmo tempo esquisito aquilo que aconteceu comigo de quando estávamos montando nossa árvore de Natal. Era um início de novembro. E na sala tomada pelas caixas dos enfeites que acumulavam a poeira adormecida de um ano inteiro, nós dois nos misturávamos muito bem àquilo tudo. Foi então que comecei a me perguntar se estaríamos ali novamente no próximo novembro; se você, descalço e de bermuda velha, subiria ao sótão para descer aquelas mesmas caixas empoeiradas; se nossas mãos se encontrariam novamente felizes no contato dos dedos tentando amarrar algum laço de enfeite com tinta descascada. Ainda não consigo precisar com objetividade a razão ou o objeto perdido ali no meio daquela bagunça que me levou a conjeturar o que o espaço negro de um ano poderia nos reservar em segredo. Porém, tenho uma vaga e radiante sensação de que tudo poderia ter começado quando me perdi olhando para você sentado no chão mexendo em alguma coisa. Pulcro e masculinamente infantil, você sorria seus dentes corretos e ascendia as sobrancelhas na mentira desculpada da falsa surpresa por um boneco velho. Ali, talvez, foi quando comecei a cuidar do que poderia nos acontecer diante da montanha-russa dos meus hormônios e das minhas crises de existência diante do meu armário desprovido de opções para um sábado à noite. Perguntei secretamente a mim mesma se a sorte dos enlatados em promoção me faria te perder em algum corredor do supermercado lotado. Investiguei os nossos signos se discutiríamos gravemente dentro do carro durante algum engarrafamento. Indaguei ao mormaço que vinha da rua e que entrava pela janela atrás de mim se alguma tarde quente do próximo verão me trairia ao te mostrar na praia um par de coxas bronzeadas rebolando. Continuaria eu sem atrasos me tornando fértil na primeira quinzena de cada mês? Continuaria você me buscando todas as noites com suas mãos e me amando calado no escuro do quarto até me fazer um filho? Por sorte você não consegue saber nem perceber a profusão de interrogações que me consomem nesse momento. Olhando pra você aí sentado no chão... Você estará sentado neste mesmo lugar no ano que vem? Eu acendo as luzes amarelas da árvore e seu rosto se ilumina. Nosso filho terá o seu sorriso e os meus olhos? Você tira a estrela da caixa e a arranja no pico do pinheiro. Eu te amo tanto. De pé ao meu lado, você me puxa pela cintura e me abraça. Então você me encontra com seus olhos e me pergunta por que eu te olhava tão fixamente. Eu desencontro os meus olhos dos seus e os perco sobre as luzes que piscam. E digo: em nada!

Fernando Igrejas


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