Mais uma vez aqui estou a tomar os antialérgicos para seguir com a medicação da sessão de quimioterapia. A enfermeira de pele morena e sorriso simpático talentosamente assume o papel de uma grande chefe da cozinha catalã. Com as mãos calmas e seguras, ela é sábia na dosagem das ervas, dos líquidos e ingredientes de todo desconhecidos para mim. Minha confiança nessa figura afável foi com o tempo se tornando tão palpável que agora mesmo eu seria capaz de fechar os olhos e abrir a boca – como nos tempos de menino minha mãe me deliciava com balas de caramelo – sem recear que ela me jogasse um grilo ainda vivo goela abaixo – como era de se esperar dos colegas da escola. Porém, esta confiança não é filha de uma ausência de coisas, não é filha da luz morna de uma chocadeira; pois parece morar neste sorriso uma espécie de deleite – da parte dela, é claro – em saber que logo estarei ensaiando minha língua áspera num sabor nunca antes tocado. Todavia, antes de aventurar minha colher nesta panela fumegante, ela me prepara para o delicado mergulho dos iniciantes. Põe bóias nos meus braços, me pede para bater muito forte as pernas e segura as minhas mãos para que eu não me afunde. Tudo conspira em parecer que realmente ela se importa comigo. Logo o estilar marcado e paciente dos químicos começa a cair no côncavo da colher. O líquido transparente inicia sua corrida no vácuo do tubo e todas as colheres vêm diretamente volver dentro das minhas veias. Pressinto que o tempo já não mais me pertence desde a queda da primeira gota. Percebo que o tempo não me será dado de volta até que a derradeira lágrima tombe do alto. Eis então a paralisia do instante para a batalha épica das colheres contra o que se esconde dentro de mim. Uma luta é travada dentro da minha própria carne e mesmo assim não me é possível precisar quantos soldados há de cada lado e quantos são. Me torno uma pátria invadida por estranhos que vêm guerrear nas minhas terras. No silêncio apenas quebrado pela cadência das gotas, as longas horas vão se passando e meu corpo já sente o peso da espada e as feridas adquiridas durante a guerra. A última colher enfim é vertida. A enfermeira se aproxima e verifica a medicação. Me sorri com calor e segura as minhas mãos: bata forte as pernas, hoje você venceu a batalha.
Fernando Igrejas
Fernando Igrejas

Oi querido! Que ótemo! Seu blog já está aqui nos meus favoritos... De alguma forma, você conseguiu trazer leveza a um momento que é pesado. Muito beom! Continuarei lendo! Beijos
ResponderExcluirO que houve com vc? Pq tem que fazer quimioterapia?
ResponderExcluirSuper abraço ;-)~
Nossa que lindo,adorei fernando!
ResponderExcluirparabéns,continue assim,você tem talento!
beijoss Candy!
:*:*:*