sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Eu, uma santa pagã




De súbito me tomou um calafrio assim sem ser dia frio. Encolhida na cama com as pernas envolvidas por meus braços magros e nus, solucei quando me lembrei de você. Pois ali perdida na vastidão solitária do quarto, desconhecida do tempo que corria na rua e das horas tiquetaqueando nos relógios de parede espalhados pela casa, entrei lentamente numa espécie de suspensão de momento. Não somente perdida na profundeza rasa do quarto, mas mais perdida na profundeza de mim mesma, a açucarada sensação de estar suspensa sobre meu próprio corpo me tomou por completa, como se esta sorrateiramente chegasse para logo tornar-se dona e senhora de mim sem prévia autorização. Tomada, gozada de nostalgia e embebida no líquido placentário e muito viscoso de uma triste paz, assim como numa espécie de estranha santidade, indecisa e ao mesmo tempo perdida no tênue limiar entre a doçura e a benevolência do estado elevado ao qual me encontrava e da agitação das memórias, me deixei ser levada pelo rastro de energia que ainda restava do seu caminhar e sorriso pelo espaço aéreo do quarto. Ainda era possível sentir a temperatura dos seus pés tocando os meus sob o cobertor na manhã calma de um domingo, me afirmando na intimidade das pontas dos seus dedos que você não se tinha ido embora durante a noite passada. Ainda sentia a umidade pegajosa do seu suor nos travesseiros, a invasão do seu cheiro me impregnando e calando meu cio, a barba cerrada carinhosamente ferindo minha nuca... Então, nessa espécie de bicho santa, envolvida por lençóis amarrotados que faziam vezes de manto sagrado capaz de curar leprosos e cegos e atrair multidões num deserto muito grande, expandi-me toda em luz. Luz clara e amarela. Brilhante. Ofuscante. Não sólida, não gasosa, nem líquida; mas luz me tornei para que pudesse me fundir com o que de energia ainda restava de ti no ar. Benzida e beatificada, como fosse um altar, minha cama se fez. E pagã fui-me sentar à tua esquerda.
Fernando Igrejas             

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