sábado, 14 de novembro de 2009

A ruiva





Ah como eu amaria poder ser medida em escala “Ríshtêrrr” na sua vida! Como eu gozaria ter o poder de balançar esse seu mundo que você não me deixa entrar. Fazer despencar os seus frágeis prédios de concreto barato e de areia da praia. O centímetro, o litro, o quilo só serviriam para medir o segundo contido no meu piscar durante o seu durante. Estou certa que você não passa de um ordinário. Sim; de um grandessíssimo ordinário por não retornar às minhas ligações e aos úmidos recados deixados na sua secretária eletrônica: vou ficar hoje a noite em casa (se tiver um tempinho livre, me liga) Beijo (tchau). Você é um ordinário por não abrir mais a porta do carro como no nosso primeiro encontro, pela cadeira que não é mais puxada no restaurante, pelas flores secas do ramalhete que não me foi dado e por não tomarmos mais daquele vinho servido (doce. cheiroso. com gosto de uva pequena.) naquela pizzaria em Campos do Jordão no primeiro aniversário de namoro. Um grande ordinário você se tornou por aquela vez da gente voltando da praia, sujos de areia e suados da caminhada, quando acabei encontrando um chumaço de cabelo ruivo no ralo do seu banheiro. Meu Deus, eu não sou ruiva. De quem era aquele cabelo? Quem você levava pra aí além de mim? Quem seria aquela mulher de cabelo vermelho? Eu te perguntei isso tantas vezes aquela tarde. Eu gritei tanto e gritei tão alto. Mas você não falou, parecia não me escutar. Eu me indignei com você e com os azulejos brancos das paredes que também não me falaram nada. Aquele dia foi a última vez que nos vimos. Passaram-se duas semanas. A gente ia se ver hoje. Sair pra conversar. Mais uma vez você me acha uma tola por querer que eu acredite no que você me disse essa tarde pelo telefone: Vou ter de ficar com meus pais essa noite, vamos receber meus avós que estão chegando de Londrina para o Natal. Desculpe, a gente se vê amanhã. Mas eu duvido que você esteja de suéter e gel no cabelo esperando sua avó de sotaque sulista. Com toda a certeza você deve estar na companhia do Jorge, aquele beberrão metido à cineasta, ou metido em algum motelzinho barato com alguma ruiva mais magra do que eu. Aliás, motelzinho barato coisa nenhuma, motelzinho caro e com banheira à hidro. Pois com ela o seu amor não deve achar absurda a idéia de trabalhar um mês inteiro e pagar um motel tão caro só porque o quarto vem com cascata e hidro. Comigo você planeja o orçamento. Comigo você economiza. Eu sempre tenho que dizer que te amo pegando o baratinho das promoções do pernoite na quarta-feira. A ruiva é o seu quente sábado alegre e ainda iluminado pelo neon da placa do bar que você freqüenta com seus amigos. Eu, eu sou a quarta-feira chuvosa de colar de pérolas e sapato limpo. No meu dia não tem teatro, não tem fila no cinema, não tem barzinho cheio, não tem neon. Nesse momento vocês devem estar no banho. Num demorado banho no seu banheiro de azulejos brancos. Os dois abraçados e extintos pela fumaça quente do vapor que aos poucos vai cobrindo os espelhos da pia. Enquanto ela usa o meu pente e ousa deixar cabelo ruivo no ralo, eu guardo nossas fotos na gaveta da minha cabeceira. Eu me levanto da cama. Amarro os cabelos num rabo de cavalo. Pego a chave do carro e fecho a porta atrás de mim. Saio de casa enquanto ela te abre e entra no seu peito. Estou a caminho da sua casa. Antes de eu chegar aí de olhos vermelhos e inchados de tanto chorar no travesseiro, fique antes você sabendo que eu não te amo tanto assim feito uma louca mansa como posso parecer às vezes. Eu não sou assim tão ciumenta. Eu não estou assim tão desesperada por você. Eu não faço tanto drama como você mesmo diz sempre. E faço questão que você saiba que só decidi ir até aí porque para mim seria insuportável continuar a viver sabendo que esta ruiva também se apodera do meu condicionador importado.
Fernando Igrejas

3 comentários:

  1. "Eu me indignei com você e com os azulejos brancos das paredes que não me falaram nada também" PERFEITO!!!!

    "porque eu não suportaria saber que esta mulher também se apodera do meu condicionador importado." PERFEITO!!!!

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  2. meu anjo acabei ficando com raiva no desenrolar da história e ai quase me acabei d rir no final hahaha muito bom parabéns vc escreve muito bjos...
    carla

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  3. Rs! Muito bom Fernando...tô descobrindo alguns roteiros aqui no seu blog...

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