quarta-feira, 18 de novembro de 2009




Receio que deixarei de escrever contos por um tempo que ainda me parece indeterminado, pois algo que parece ser muito especial está nascendo sob a forma de um conto mais longo, mais desenvolvido, capitulado, com muitas páginas e uma capa. 
( rsrsrsrs)
Como todo bom pai que se preza, me dedicarei a este filho não planejado e muito já amado. Assim, durante esse período, não descarto a possibilidade de voltar aqui e botar um texto recém-criado em caráter de urgência e paixão incontrolada... Mas até lá, muita coisa ainda pode estar escrita nas folhas pautadas do destino.


Até mais,
Fernando Igrejas

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A guerra das colheres










Mais uma vez aqui estou a tomar os antialérgicos para seguir com a medicação da sessão de quimioterapia. A enfermeira de pele morena e sorriso simpático talentosamente assume o papel de uma grande chefe da cozinha catalã. Com as mãos calmas e seguras, ela é sábia na dosagem das ervas, dos líquidos e ingredientes de todo desconhecidos para mim. Minha confiança nessa figura afável foi com o tempo se tornando tão palpável que agora mesmo eu seria capaz de fechar os olhos e abrir a boca – como nos tempos de menino minha mãe me deliciava com balas de caramelo – sem recear que ela me jogasse um grilo ainda vivo goela abaixo – como era de se esperar dos colegas da escola. Porém, esta confiança não é filha de uma ausência de coisas, não é filha da luz morna de uma chocadeira; pois parece morar neste sorriso uma espécie de deleite – da parte dela, é claro – em saber que logo estarei ensaiando minha língua áspera num sabor nunca antes tocado. Todavia, antes de aventurar minha colher nesta panela fumegante, ela me prepara para o delicado mergulho dos iniciantes. Põe bóias nos meus braços, me pede para bater muito forte as pernas e segura as minhas mãos para que eu não me afunde. Tudo conspira em parecer que realmente ela se importa comigo. Logo o estilar marcado e paciente dos químicos começa a cair no côncavo da colher. O líquido transparente inicia sua corrida no vácuo do tubo e todas as colheres vêm diretamente volver dentro das minhas veias. Pressinto que o tempo já não mais me pertence desde a queda da primeira gota. Percebo que o tempo não me será dado de volta até que a derradeira lágrima tombe do alto. Eis então a paralisia do instante para a batalha épica das colheres contra o que se esconde dentro de mim. Uma luta é travada dentro da minha própria carne e mesmo assim não me é possível precisar quantos soldados há de cada lado e quantos são. Me torno uma pátria invadida por estranhos que vêm guerrear nas minhas terras. No silêncio apenas quebrado pela cadência das gotas, as longas horas vão se passando e meu corpo já sente o peso da espada e as feridas adquiridas durante a guerra. A última colher enfim é vertida. A enfermeira se aproxima e verifica a medicação. Me sorri com calor e segura as minhas mãos: bata forte as pernas, hoje você venceu a batalha.


Fernando Igrejas



Onde você estará no próximo Natal?




Achei engraçado e ao mesmo tempo esquisito aquilo que aconteceu comigo de quando estávamos montando nossa árvore de Natal. Era um início de novembro. E na sala tomada pelas caixas dos enfeites que acumulavam a poeira adormecida de um ano inteiro, nós dois nos misturávamos muito bem àquilo tudo. Foi então que comecei a me perguntar se estaríamos ali novamente no próximo novembro; se você, descalço e de bermuda velha, subiria ao sótão para descer aquelas mesmas caixas empoeiradas; se nossas mãos se encontrariam novamente felizes no contato dos dedos tentando amarrar algum laço de enfeite com tinta descascada. Ainda não consigo precisar com objetividade a razão ou o objeto perdido ali no meio daquela bagunça que me levou a conjeturar o que o espaço negro de um ano poderia nos reservar em segredo. Porém, tenho uma vaga e radiante sensação de que tudo poderia ter começado quando me perdi olhando para você sentado no chão mexendo em alguma coisa. Pulcro e masculinamente infantil, você sorria seus dentes corretos e ascendia as sobrancelhas na mentira desculpada da falsa surpresa por um boneco velho. Ali, talvez, foi quando comecei a cuidar do que poderia nos acontecer diante da montanha-russa dos meus hormônios e das minhas crises de existência diante do meu armário desprovido de opções para um sábado à noite. Perguntei secretamente a mim mesma se a sorte dos enlatados em promoção me faria te perder em algum corredor do supermercado lotado. Investiguei os nossos signos se discutiríamos gravemente dentro do carro durante algum engarrafamento. Indaguei ao mormaço que vinha da rua e que entrava pela janela atrás de mim se alguma tarde quente do próximo verão me trairia ao te mostrar na praia um par de coxas bronzeadas rebolando. Continuaria eu sem atrasos me tornando fértil na primeira quinzena de cada mês? Continuaria você me buscando todas as noites com suas mãos e me amando calado no escuro do quarto até me fazer um filho? Por sorte você não consegue saber nem perceber a profusão de interrogações que me consomem nesse momento. Olhando pra você aí sentado no chão... Você estará sentado neste mesmo lugar no ano que vem? Eu acendo as luzes amarelas da árvore e seu rosto se ilumina. Nosso filho terá o seu sorriso e os meus olhos? Você tira a estrela da caixa e a arranja no pico do pinheiro. Eu te amo tanto. De pé ao meu lado, você me puxa pela cintura e me abraça. Então você me encontra com seus olhos e me pergunta por que eu te olhava tão fixamente. Eu desencontro os meus olhos dos seus e os perco sobre as luzes que piscam. E digo: em nada!

Fernando Igrejas


sábado, 14 de novembro de 2009

A ruiva





Ah como eu amaria poder ser medida em escala “Ríshtêrrr” na sua vida! Como eu gozaria ter o poder de balançar esse seu mundo que você não me deixa entrar. Fazer despencar os seus frágeis prédios de concreto barato e de areia da praia. O centímetro, o litro, o quilo só serviriam para medir o segundo contido no meu piscar durante o seu durante. Estou certa que você não passa de um ordinário. Sim; de um grandessíssimo ordinário por não retornar às minhas ligações e aos úmidos recados deixados na sua secretária eletrônica: vou ficar hoje a noite em casa (se tiver um tempinho livre, me liga) Beijo (tchau). Você é um ordinário por não abrir mais a porta do carro como no nosso primeiro encontro, pela cadeira que não é mais puxada no restaurante, pelas flores secas do ramalhete que não me foi dado e por não tomarmos mais daquele vinho servido (doce. cheiroso. com gosto de uva pequena.) naquela pizzaria em Campos do Jordão no primeiro aniversário de namoro. Um grande ordinário você se tornou por aquela vez da gente voltando da praia, sujos de areia e suados da caminhada, quando acabei encontrando um chumaço de cabelo ruivo no ralo do seu banheiro. Meu Deus, eu não sou ruiva. De quem era aquele cabelo? Quem você levava pra aí além de mim? Quem seria aquela mulher de cabelo vermelho? Eu te perguntei isso tantas vezes aquela tarde. Eu gritei tanto e gritei tão alto. Mas você não falou, parecia não me escutar. Eu me indignei com você e com os azulejos brancos das paredes que também não me falaram nada. Aquele dia foi a última vez que nos vimos. Passaram-se duas semanas. A gente ia se ver hoje. Sair pra conversar. Mais uma vez você me acha uma tola por querer que eu acredite no que você me disse essa tarde pelo telefone: Vou ter de ficar com meus pais essa noite, vamos receber meus avós que estão chegando de Londrina para o Natal. Desculpe, a gente se vê amanhã. Mas eu duvido que você esteja de suéter e gel no cabelo esperando sua avó de sotaque sulista. Com toda a certeza você deve estar na companhia do Jorge, aquele beberrão metido à cineasta, ou metido em algum motelzinho barato com alguma ruiva mais magra do que eu. Aliás, motelzinho barato coisa nenhuma, motelzinho caro e com banheira à hidro. Pois com ela o seu amor não deve achar absurda a idéia de trabalhar um mês inteiro e pagar um motel tão caro só porque o quarto vem com cascata e hidro. Comigo você planeja o orçamento. Comigo você economiza. Eu sempre tenho que dizer que te amo pegando o baratinho das promoções do pernoite na quarta-feira. A ruiva é o seu quente sábado alegre e ainda iluminado pelo neon da placa do bar que você freqüenta com seus amigos. Eu, eu sou a quarta-feira chuvosa de colar de pérolas e sapato limpo. No meu dia não tem teatro, não tem fila no cinema, não tem barzinho cheio, não tem neon. Nesse momento vocês devem estar no banho. Num demorado banho no seu banheiro de azulejos brancos. Os dois abraçados e extintos pela fumaça quente do vapor que aos poucos vai cobrindo os espelhos da pia. Enquanto ela usa o meu pente e ousa deixar cabelo ruivo no ralo, eu guardo nossas fotos na gaveta da minha cabeceira. Eu me levanto da cama. Amarro os cabelos num rabo de cavalo. Pego a chave do carro e fecho a porta atrás de mim. Saio de casa enquanto ela te abre e entra no seu peito. Estou a caminho da sua casa. Antes de eu chegar aí de olhos vermelhos e inchados de tanto chorar no travesseiro, fique antes você sabendo que eu não te amo tanto assim feito uma louca mansa como posso parecer às vezes. Eu não sou assim tão ciumenta. Eu não estou assim tão desesperada por você. Eu não faço tanto drama como você mesmo diz sempre. E faço questão que você saiba que só decidi ir até aí porque para mim seria insuportável continuar a viver sabendo que esta ruiva também se apodera do meu condicionador importado.
Fernando Igrejas

Eu matei você com um Nova York



Eu matei você quando falei Nova York. Sem querer, eu acabei matando você quando cantei Nova York. Não me lembro quem estava cantando aquela música no rádio. Agora mais calma e situada no tempo, suponho que era uma daquelas bandas inglesas da moda. Pois tinha aquela batidinha marcada e rápida típica do rock inglêsUM CLARÃO OFUSCANTE E MUITO GRANDE ENGOLE NOSSO CARROeu adorava aquela músicaBUZINAS DISPARAM. TUDO ACONTECE RÁPIDOnova yorkOS VIDROS EXPLODEM EM ESTILHAÇOS COMO SE FOSSEM PÓLVORA INFLAMADAa música sumiu no ar surdo dos giros que damos na pista molhadaEU E VOCÊ PARAMOS DE CANTAR A MÚSICA DAQUELA BANDA INGLESA QUE EU GOSTOvocê sangrava tanto e o seu vermelho continuava tão vivo mesmo estando fora das suas veiasAPOSTO QUE VOCÊ NEM ADIVINHA QUE TE ACHO LINDO DE OLHOS FECHADOSvocê ficou tão calmo enquanto parecia dormirA MÚSICA PAROUo disco se quebrouVOCÊ NEM FEZ A BARBA ANTES DE SAIRMOS DE CASAo torpor melancólico da cinza da fumaça dos motores. o forte cheiro de gasolinaVOCÊ NEM SE IMPORTA COM ISSO. VOCÊ CONTINUA CALMO, ACOLHIDO NO CALOR DO SONOvocê continuava calmo, acolhido no calor do sonoVOCÊ NEM SE TOCA QUE A MÚSICA PAROUnova yorkNOVA YORKboa noiteBOA NOITE.

Fernando Igrejas

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Você e Deus em um complô contra mim






E justamente hoje quando me levantei disposto a mudar o mundo, decidido a alimentar a África e extinguir todo o trabalho escravo humano na baixa Ásia; surge você linda e perturbadora para mudar toda a bússola da minha vida correta. Então, se este receio de ser engolido por tua boca rosada não me tomasse de medo, eu te encararia e perguntaria: Não daria para você adiar por mais uma semana o constrangimento de me fazer atravessar o semáforo ainda fechado, recebendo buzinadas de todos os carros que fiz parar, só para estar do outro lado da rua onde você caminhava calma e solta da vida? Porque só agora, quando descobri que a humanidade precisava tanto de mim, você aparece com essa cara linda sem nenhuma maquiagem vasculhando as vitrines do bairro com esses olhos castanhos? Porque só agora depois de anos e da fortuna que gastei com análise você submerge do chão para tirar a tranqüilidade dos meus sonhos? O que se passa nessa sua cabeça loura e linda pra te fazer achar ser autorizada a perturbar tanto com seu sorriso? O que te faz botar esse vestido azul tão despretensiosamente cheio de intenções e sair de casa durante esta tarde tão quente? Desceu do seu esconderijo para vir comprar cigarros ou o fermento para o pão que sobre a mesa ainda espera por suas mãos quentes? Então ali ainda de pé na calçada lutando contra alguma força que me pedia de joelhos por ti, eu parado e consumido por este duelo mudo, desleal e corrupto, de cartas marcadas e pontos vendidos, chego a perguntar aos céus – sem mesmo precisar olhar para ele – se tua beleza é capaz de alcançar o divino artístico de ser tão grande ao extremo de sensibilizar Deus, fazendo-o dividir contigo os segredos da engrenagem do destino para ciente de tudo, assim como Ele, você saber por qual rua eu passaria agora. Sim, pois sabedora das exatas horas e do lugar, você, meticulosa e calculadamente de sandálias rasteiras, jogaria os seus cabelos em minha direção, me inundando e me deixando cego para o resto da cidade que ainda ardia numa tarde quente de terça-feira. E eu que ia em direção à banca de jornais como diariamente me acostumei, me perdi na simplicidade do caminho.     
Fernando Igrejas 

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Eu, uma santa pagã




De súbito me tomou um calafrio assim sem ser dia frio. Encolhida na cama com as pernas envolvidas por meus braços magros e nus, solucei quando me lembrei de você. Pois ali perdida na vastidão solitária do quarto, desconhecida do tempo que corria na rua e das horas tiquetaqueando nos relógios de parede espalhados pela casa, entrei lentamente numa espécie de suspensão de momento. Não somente perdida na profundeza rasa do quarto, mas mais perdida na profundeza de mim mesma, a açucarada sensação de estar suspensa sobre meu próprio corpo me tomou por completa, como se esta sorrateiramente chegasse para logo tornar-se dona e senhora de mim sem prévia autorização. Tomada, gozada de nostalgia e embebida no líquido placentário e muito viscoso de uma triste paz, assim como numa espécie de estranha santidade, indecisa e ao mesmo tempo perdida no tênue limiar entre a doçura e a benevolência do estado elevado ao qual me encontrava e da agitação das memórias, me deixei ser levada pelo rastro de energia que ainda restava do seu caminhar e sorriso pelo espaço aéreo do quarto. Ainda era possível sentir a temperatura dos seus pés tocando os meus sob o cobertor na manhã calma de um domingo, me afirmando na intimidade das pontas dos seus dedos que você não se tinha ido embora durante a noite passada. Ainda sentia a umidade pegajosa do seu suor nos travesseiros, a invasão do seu cheiro me impregnando e calando meu cio, a barba cerrada carinhosamente ferindo minha nuca... Então, nessa espécie de bicho santa, envolvida por lençóis amarrotados que faziam vezes de manto sagrado capaz de curar leprosos e cegos e atrair multidões num deserto muito grande, expandi-me toda em luz. Luz clara e amarela. Brilhante. Ofuscante. Não sólida, não gasosa, nem líquida; mas luz me tornei para que pudesse me fundir com o que de energia ainda restava de ti no ar. Benzida e beatificada, como fosse um altar, minha cama se fez. E pagã fui-me sentar à tua esquerda.
Fernando Igrejas             

quinta-feira, 22 de outubro de 2009



Às vezes vem uma inspiração do nada, uma imagem do desconhecido...
 pego um pincel, misturo umas tintas e sai algo assim...








terça-feira, 20 de outubro de 2009

A morte personificada







Ainda não é noite tão avançada quando vem roçar no vidro da janela a ponta do galho de uma velha árvore do jardim. Pela força gelada do vento noturno, o movimento de vir tocar os dedos secos no vidro e se esquivar para trás se revela como o bailado triste de secar as lágrimas. É melancólica a música que embala esta dança, pois ela nasce cadenciada, seca e quase toda muda para ir morrer tal como morrem os últimos suspiros de uma vida que ainda agoniza os seus últimos minutos. Parece ser muito doce assim cantar e dançar ao mesmo tempo. Sim, doce parece ser este furtivo encontro entre galho e vidro como o olhar paciente da morte, sempre a esperar por aquela vida de partida, a qual veio buscá-la. Nota-se algo de rebelde e infantil nas maneiras e feições, algo de não querer sentir dor no roçar e brincar do vento com o vidro, algo de sagrado e muito divino na oferenda voluntária que esta vida faz de si para a morte. Ali, prostrada e sufocada, enquanto viva ainda estiver, a vida toda se abre em braços, pernas e peito. Toda se oferece àquela coberta de frieza e negro. Assim, enquanto o ar puder entrar e descansar em seus pulmões muito cansados, a vida arfará em suspiro, se contorcerá sobre o leito e puxará o lençol suado com as mãos para si, mergulhada no líquido do gozo misterioso sobre o leito onde ao lado, em pé, a morte assiste a cena sôfrega. A morte aguarda a vida. Espera por ela. Não avança sinal. Não fura regras. Não se impacienta. Por um longo momento, ambas se olham nos olhos. Para a vida, é chegada a hora de deixar ser abraçada e levada em sossego por aquela fria e vestida de negro, por aquela nunca vista de rosto descoberto, por aquela que crê lhe pertencer apenas por ter visto em seus olhos de morte a razão de morrer no átimo e algum segundo perdido. Nesse momento, meus olhos se confundem e não me é possível saber ao certo se é a morte que lentamente se deita na cama e toma nas suas muito geladas as já mornas mãos da vida ou se é ela que, no ímpeto de resgatar o que ainda lhe sobra de força, se levanta do leito e sela um beijo nos lábios escondidos da morte. Porém, de outro escuro jardim onde dança e canta uma árvore solitária, alguém virá me contar em segredo que a morte encontra a vida assim como os dedos secos de um galho vem tocar a superfície de um vidro. Virá e me dirá que ali se encontram os amantes na intimidade que habita o silêncio da noite, quando o homem amado desce ao leito quente e úmido de sua mulher ou quando esta se levanta, no ímpeto de suas ultimas forças guardadas, e sela seus lábios apaixonados nos dele. Acreditará ainda mais em mim e me guardará outro segredo, confessando que neste divino abraço ela deixará de viver para morrer esgotada e segura no calor aconchegante do peito dele. Antes de fugir para outro jardim, antes do sol se levantar no horizonte e envolver a terra com seu hálito morno, apontará algo que jaz no chão: uma semente coberta de folhas e muito úmida pelo último sereno. Com sorriso infante e de pés descalços, guardará a semente no bolso sujo e desaparecerá entre as folhagens do jardim que há pouco era tomado pelo escuro da noite.
Fernando Igrejas 




                  
          

Eu gosto de escrever






Abro um baú e espano a poeira que os anos trouxeram ali pra dentro. Engolidos pela escuridão da caixa, meus olhos tateiam a superfície interna das paredes enquanto que minhas mãos vão, num mergulho sem medo pelo espaço, em busca de algo que jaz no fundo. Sob diversas formas, cores e tamanhos, vários outros baús vem compor o cenário que costumamos chamar de memória. Nalgum, acabo por encontrar um rosto conhecido: o de um menino curioso que não pára de perguntar o porquê das coisas e que desde muito pequeno já inventava – e continua ainda a inventar - personagens e estórias. Era na falta dos coleguinhas e de outras crianças da vizinhança que sua mãe e a cozinheira da casa se transformavam na platéia diária. Pois naquele curto intervalo entre o jornal e a novela das oito, as duas mulheres se sentavam nas cadeiras de alumínio da fria área de serviço, e viam surgir, ora envolto em papel ora vestindo meias coloridas, a pequena figura de um trovador, de um palhaço saltimbanco ou de algum outro personagem inspirado nas últimas horas do dia. Por mais que naquele lugar não existisse nada além de uma barulhenta máquina de lavar roupas, uma geladeira velha e duas cansadas senhoras sentadas em cadeiras de alumínio, aquele menino só se enxergava num palco muito iluminado e só via as milhares de pessoas atentas no que dizia. Tudo se resumia no transmitir dalguma coisa sem se importar com a forma. A idade ainda lhe permitia tais liberdades. Assim, embebido naquela arte de criança de fazer arte, aquele menino foi crescendo sem deixar de inventar, sem se esquecer de participar do mundo e de ter curiosidade por ele. No colegial, a matéria predileta foi a Redação. Hoje, me basta fechar os olhos para muito facilmente ser atingido por aquela sensação de esperar a professora escrever no quadro negro as três sugestões para tema. Eram sempre três. E sempre vinham no fim da aula, naqueles poucos minutos que restam para soar o sino. Rapidamente anotava e guardava na mochila o caderno encapado com plástico azul. Mal fechava o zíper da bolsa, minha cabeça já ia agitada no vapor das ideias. No caminho para casa, as vivas invenções adquiriam tal força a ponto de fazer emudecer o menino tão falante e ativo. Pois mecanicamente andando pela rua, passava circunspecto e de cabeça baixa pelos outros garotos que brincavam e saudavam o findar da aula. Naquele instante eu deixara de pertencer àquele fim de tarde e mergulhava dentro de mim mesmo como à época da fria área de serviço, no curto intervalo entre o jornal e a novela das oito. Então dentro do quarto, de porta fechada e sentado à escrivaninha, minha mão guiava a ponta do lápis. Ali era o nascer pleno e calmo de um novo chão. Era fato que a ponta do grafite não conseguia correr na mesma velocidade dos pensamentos; mas parece-me agora que diante daquela escrivaninha os tempos se casavam melhor e mais fácil, sem pedir até. Era vagarosamente, através das letras redondas e cursivas, que aquilo que me vinha por dentro tomava forma sem maiores dificuldades. O prazer e a alegria de escrever – e de estar escrevendo – me faziam encher algumas páginas. Escrever era botar em substantivos o abstrato. Estar escrevendo era viajar para fora do quarto e da cidade, e de mim mesmo. O ofício se figurava no levar algo a alguém de mãos em concha, de ofertar algo de mim para o que me cercava. Deliciosamente, tudo se consumia na aula seguinte quando todos liam seus textos e a professora fazia a escolha dos melhores para serem expostos, durante uma semana inteira, no mural do corredor central. Para aquele menino curioso, ter seu texto lá exposto vinha como o aplauso mudo e abafado dos olhos que porventura ali viessem pousar e lê-lo. Pois assim o tempo foi passando e o menino cresceu. Continua a escrever. E guarda o que escreve sem saber para quem.
Fernando Igrejas